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Fome mata lentamente refugiados de Darfur

Por: Hilary Andersson - BBC BRASIL.COM
Tensões tribais e raciais e inquietação regional conduziram a uma guerra em que os civis estão sendo punidos, assassinados e violentados.
Fome mata lentamente refugiados de Darfur

Hilary Andersson
de Darfur


Mães e filhos tentam sobreviver em condições desesperadoras
Eu estou sentada no escuro à beira de um acampamento de refugiados em Darfur. Ouço o choro persistente de uma criança se impondo sobre o murmúrio das pessoas se preparando para dormir.
Hoje, as estrelas são visíveis no céu – o que significa que não teremos chuva. A noite passada não foi nada parecida.

Dá para ver a chuva chegando quando é de tarde. O céu começa a ficar escuro, e o horizonte ganha um tom amarelo amarronzado, que é como um presságio.

Então, o vento começa e o deserto do Saara se levanta com rapidez, jogando suas areias em todas as direções. As pessoas começam a correr com suas longas roupas esfarrapadas e as cabeças curvadas contra o vento.

Falta de abrigos

Depois, o céu simplesmente despenca, com o vento lançando sem piedade as pesadas cortinas d’água sobre tudo e todos.

Mães com seus filhos, com os rostos contorcidos de sofrimento, se agacham agarrando as paredes de seus abrigos improvisados que quase nada colaboram para mantê-las secas.

O plástico gasto que constitui as paredes das barracas balança ferozmente com o vento. O chão sob meus pés se transforma numa poça de lama.

Eu e minha equipe de TV fugimos para nosso abrigo, que fica a 15 metros dali. A noite inteira, a chuva castiga nosso teto. Eu acordo às 3h da manhã – e ela continua.

Darfur é um pesadelo vivo hoje, neste lugar, e amanhã, talvez, em outro. Tensões tribais e raciais e inquietação regional conduziram a uma guerra em que os civis estão sendo punidos, assassinados e violentados.



As pessoas do lado de fora estão ainda sentadas, enfrentando o vento e a chuva, da mesma forma que estavam quando estava anoitecendo. Assim é a maior parte das noites para eles.

Desperdício

De manhã, nós acordamos e já ouvimos as crianças chorando. O hospital improvisado, erguido por estrangeiros que cá vieram para ajudar, está tão lotado que alguns dos doentes estão dormindo no chão.

Em meio ao fedor e às moscas, as crianças ficam largadas, olhando para o nada. Pequenos seres humanos, que nasceram na loucura da crueldade de um homem atacando a outro, na loucura de uma onda de mortes que vitimou pais, irmãos, avós e tios.

E, agora, elas enfrentam a fome, que é lenta e cruel. Muitas das crianças já não têm nem forças para comer. Algumas estão com a pele descascando e com lesões que são decorrentes da desnutrição avançada – suas peles estão com manchas, soltas ao redor dos ossos. As mães não têm o que fazer.

Nós passamos duas semanas em Darfur, passando por povoados desoladores, devastados, sem moradores.

Nós viajamos para o campo de Mornay, onde estivemos um mês atrás. De volta ao local, fomos à barraca onde é feito o atendimento médico. Lá dentro, havia um silêncio estranho.


Quatro pessoas estavam sentadas em um círculo. Uma mãe estava olhando para baixo e chorando em silêncio, passando as mãos sobre seu rosto. Foi então que percebi o que estava acontecendo – sua filha, Nadia, com quem nós havíamos passado dois dias na barraca há um mês, estava morrendo.

Sua mãe, Juma, estava enfrentando a dor terrível de dar adeus.

Nós saímos de lá para lhe dar privacidade. Dez minutos depois, Nadia estava morta.

Homens levaram seu corpo para prepará-lo para o enterro. Depois, ressurgiram no cemitério, carregando o pequeno corpo em suas mãos. Rezaram e depositaram o cadáver na terra.

Juma, a mãe, se sentou no chão. Ela não estava mais chorando.

Chorando no deserto

Depois do funeral, fui prestar minha homenagem. Juma estava acompanhada de duas mulheres mais velhas que, talvez por força da tradição, estavam dizendo a ela que controlasse suas emoções.

Mas quando ela me viu, talvez lembrando da filmagem que fizemos com sua filha no mês passado, ela começou a gritar “Nadia, Nadia, Nadia”.


Mulheres mais velhas disseram a Juma controlar suas emoções

Ela se atirou nos meus braços, gritando, sem parar de gritar. Ela continuou repetindo o nome da filha. Então, as mulheres mais velhas também começaram a gritar.

Quando Juma saiu do cemitério, eu a vi caminhando sozinha, chorando, lançando o nome de sua filha na brisa do vasto deserto, no vazio do acampamento.

Burros, também quase mortos de fome, se moviam lentamente ao redor. Os refugiados continuavam recolhendo água e concertando suas barracas. Isso acontece todo dia.

Darfur é um pesadelo vivo hoje, neste lugar, e amanhã, talvez, em outro. Tensões tribais e raciais e inquietação regional conduziram a uma guerra onde os civis estão sendo punidos, assassinados e violentados.

Nós somos adultos, esse é o mundo em que vivemos e que aceitamos. O mundo que criamos para nós.

Será que essas coisas vão continuar ocorrendo na África daqui a cem anos? Isso um dia vai mudar? Por que se permite que os massacres de civis no Sudão aconteçam? Por que ninguém nunca contou os mortos?

Dinheiro é necessário agora, desesperadamente, para salvar vidas. Mas a situação chegou ao ponto que chegou em Darfur porque ninguém percebeu ou fez algo para evitá-la.

Nadia não precisava ter morrido.



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